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Sinergias Acadêmicas UE-América Latina

Por que o Brasil não escolherá um lado na guerra da Ucrânia? Dois presidentes opostos, a mesma posição

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, a Europa reagiu rapidamente. Condenou Moscou, impôs amplas sanções e começou a enviar armas para Kyiv. O Brasil foi apenas até certo ponto. Como democracia e, em muitos aspectos, um país voltado para o Ocidente, condenou a invasão nas Nações Unidas, mas se recusou a aderir às sanções ou a enviar armas. Quatro anos depois, continua se recusando.


O que chama a atenção é que essa posição sobreviveu a uma mudança completa de governo. A guerra atravessou dois presidentes situados em extremos opostos do espectro político, Jair Bolsonaro, na extrema direita, e Luiz Inácio Lula da Silva, na esquerda, e, ainda assim, ambos mantiveram a mesma linha. Então, por que dois governos que concordam em quase nada acabaram adotando a mesma política em relação à guerra? A resposta está nas dependências econômicas e nas tradições diplomáticas que moldam a política externa brasileira.


Dois presidentes, uma posição

Dias antes da invasão, Bolsonaro viajou a Moscou, disse a Vladimir Putin que o Brasil estava "em solidariedade" com a Rússia e destacou a importância do comércio de fertilizantes. Quando os tanques avançaram sobre a Ucrânia, seu governo condenou a invasão na Assembleia Geral da ONU, mas seu embaixador deixou imediatamente claro que o Brasil se opunha tanto às sanções quanto ao envio de armas, argumentando que qualquer uma dessas medidas apenas prolongaria a guerra. O próprio Bolsonaro se recusou a nomear a Rússia como agressora. O Brasil votou a favor de várias resoluções, mas se absteve naquelas destinadas a punir ou isolar a Rússia, incluindo sua suspensão do Conselho de Direitos Humanos e a criação do registro de danos de guerra.


Lula, que assumiu o cargo em janeiro de 2023, mudou o tom, mas não a prática. Manteve o Brasil fora do grupo de países favoráveis às sanções e ao envio de armas. Recusou um pedido alemão para enviar armas, afirmando que “o Brasil é um país de paz”. Também foi além de Bolsonaro em sua retórica, chegando a acusar Washington e Bruxelas de "alimentar a guerra". Onde Bolsonaro havia sido passivo, Lula foi ativo. Ele propôs um “clube da paz”, um grupo de países não envolvidos que, segundo ele, poderia intermediar um acordo, e, junto com a China, apresentou um marco de paz de seis pontos que deixava de fora a integridade territorial da Ucrânia e a retirada russa. Zelensky classificou o plano como "destrutivo".


A mudança também apareceu na forma como o Brasil votou na ONU. Em 2025 e 2026, o país se absteve em todas as resoluções sobre a Ucrânia, incluindo os dois textos concorrentes sobre o terceiro aniversário da guerra, o retorno das crianças ucranianas sequestradas e o apelo por uma paz duradoura. A abstenção havia se tornado a posição padrão, um claro endurecimento em relação aos votos favoráveis de 2022 e 2023.


Por que a posição se manteve

Três forças mantêm o Brasil nessa posição, e todas elas sobrevivem a qualquer presidente individual. A primeira é material. A Rússia fornece uma parcela significativa dos fertilizantes do Brasil, cerca de um quinto das importações, abastecendo um setor do agronegócio que representa quase um quarto do PIB. O Brasil também se tornou um importante comprador de diesel russo, com as compras de combustível russo aumentando de US$ 95 milhões em 2022 para US$ 5,4 bilhões em 2024. Novas sanções dos EUA no final de 2025 reduziram posteriormente a participação da Rússia nas importações brasileiras de diesel de um pico próximo a 60% para cerca de 17%. Romper com a Rússia teria transferido o custo para agricultores e motoristas brasileiros, e os grupos de pressão que os representam — sobretudo a bancada do agronegócio — têm um peso político considerável.


A segunda é ideacional. Bolsonaro e Lula chegaram à mesma posição de contenção a partir de visões de mundo opostas. Para Bolsonaro, manter-se à margem refletia uma afinidade com líderes fortes como Putin, que afirmavam defender os “valores tradicionais”. Para Lula, isso decorria de uma desconfiança em relação às instituições lideradas pelo Ocidente e de uma visão de longa data de um mundo multipolar no qual o Brasil lidera ao lado de outras potências do Sul Global. Ambos puderam se apoiar em uma profunda tradição da política externa brasileira: o não alinhamento e a "autonomia pela diversificação", isto é, a prática de preservar a independência mantendo boas relações com todas as grandes potências, em vez de aderir a um bloco. Sanções e transferências de armas são justamente os instrumentos de coerção ocidentais que essa tradição procura evitar, uma vez que eles podem, um dia, ser utilizados no sentido contrário.


A terceira é externa. A ascensão da China oferece ao Brasil uma alternativa real ao Ocidente, e Pequim é hoje, por ampla margem, seu maior parceiro comercial. Donald Trump também se mostrou muito mais favorável à Rússia do que os presidentes americanos anteriores. Por isso, apoiar a Ucrânia já não representa claramente a posição “ocidental”, o que reduz o custo reputacional para o Brasil de permanecer à margem e, de maneira paradoxal, diminui a distância entre Washington e Brasília.


Um padrão regional

A posição brasileira se encaixa em um padrão regional mais amplo. Em toda a América Latina, a resposta comum tem sido condenar a invasão em princípio, mas evitar medidas para fazer essa condenação valer. O Chile tem sido mais crítico, enquanto Bolívia e Venezuela sequer condenaram a invasão, mas a maior parte da região se situa mais próxima do não alinhamento. Essa reação se apoia em uma profunda tradição de não intervenção e solução pacífica de controvérsias, reforçada por uma história de violações da soberania latino-americana.


A Europa não deveria presumir que parceiros democráticos e “semelhantes” compartilharão seus instintos geopolíticos. As críticas também não fizeram o Brasil mudar de posição. Quando um alto funcionário americano acusou Lula de "repetir a propaganda russa e chinesa", isso não mudou nada. À medida que a UE busca aprofundar seus vínculos com a região, por meio do acordo com o Mercosul, de cúpulas regulares com a CELAC e da competição com a China por influência, deve ter em mente que relações econômicas mais estreitas dificilmente mudarão a posição brasileira sobre a guerra, e Bruxelas não deveria esperar que isso aconteça.


O Brasil pode manter essa posição?

Apesar de todo o seu discurso sobre equilíbrio, a posição do Brasil não é neutra. Recusar-se a tomar partido é, por si só, uma escolha, e afirmar que ambos os lados compartilham a responsabilidade confere à invasão uma aparência de legitimidade. Mas essa é uma posição com raízes profundas: na dependência econômica, em uma longa tradição diplomática e em um ambiente estratégico que cada vez mais recompensa a manutenção do não alinhamento. Se o Brasil conseguirá manter essa linha ou se acabará sendo pressionado a escolher um lado é uma questão em aberto. As forças que sustentam sua posição sugerem que o país resistirá a adotar uma posição clara pelo maior tempo possível.

 

Oscar Hansen Aanerud é recém-formado no Mestrado Erasmus Mundus em Políticas Públicas pela Universidade Erasmus de Roterdã e pelo Institut Barcelona d’Estudis Internacionals (IBEI). Atualmente, é jornalista político no Dagens Næringsliv (DN), o principal jornal diário de negócios da Noruega. Seus interesses incluem economia política, desenvolvimento, política climática e diplomacia.








As opiniões expressas neste blog são exclusivamente do autor e não refletem os pontos de vista da Rede EULAS.

 
 
 

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