Cuidar em Sociedades que Envelhecem: Uma Agenda Política Compartilhada entre Europa e América Latina
- Ángela Guarín Aristizábal and Nixon Daniel Vera Garcia

- há 3 dias
- 8 min de leitura
Rumo a uma Sociedade do Cuidado como Problema Político, Não Meramente Social
I. Transformações Demográficas Recentes na América Latina e na Europa (2015–2025)
Em 2015, quando os debates sobre a mudança demográfica na América Latina ainda se desenrolavam a partir de uma posição de relativo conforto—o chamado bônus demográfico—a região parecia oferecer, ao menos no papel, uma janela excepcional para o crescimento econômico e a expansão dos direitos sociais. Uma década depois, o panorama foi transformado a uma velocidade para a qual poucas instituições estavam preparadas. A Colômbia, que por volta de 2015 registrava uma Taxa de Fecundidade Total de aproximadamente dois filhos por mulher, transitou em tempo recorde para níveis característicos de países em processo de envelhecimento. Em 2024, os nascimentos caíram cerca de 13,7% em relação ao ano anterior—a queda mais acentuada da última década—segundo o Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE, pela sigla em espanhol). Não se trata do declínio gradual previsto pelos manuais demográficos, mas de uma inflexão abrupta que escapa dos modelos lineares tradicionalmente utilizados para conceitualizar essa transição.
Esse declínio é difícil de explicar por meio de uma única lente. Condições materiais, transformações culturais e a expansão de direitos têm papel decisivo. Análises recentes sobre o colapso da fecundidade na Colômbia revelam que o que está em jogo não é apenas uma decisão privada, mas uma mudança mais ampla nas expectativas de vida de mulheres e famílias. Essa mudança está ligada à expansão desigual e fragmentada—por classe, território e identidade etno-racial—do acesso à educação, aos mercados de trabalho e à autonomia reprodutiva. Contudo, esses avanços colidem com barreiras estruturais que impedem seu exercício efetivo, incluindo a ausência de redes de cuidado, condições econômicas e habitacionais adversas, e as persistentes desigualdades de gênero enraizadas na organização doméstica—fatores que continuam impondo o ônus de criar filhos desproporcionalmente às mulheres.
O relatório The Real Fertility Crisis, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) (2025), enquadra isso como uma crise de agência, e não de desejo: muitas pessoas querem ter filhos, mas adiam ou renunciam a essa decisão por razões econômicas, trabalhistas e de acesso ao cuidado. Acrescentando maior complexidade, a particularidade da situação da América Latina reside não apenas na direção da mudança, mas em sua compressão temporal. Em uma década, a região concentrou transformações que levaram duas ou três gerações em várias economias europeias, conforme documentado em análises comparativas recentes da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).
Do outro lado do Atlântico, a Europa apresenta um quadro diferente, porém intimamente conectado. Sua transição demográfica se consolidou há décadas e se reflete hoje em uma população estruturalmente envelhecida. A idade mediana se aproxima dos 45 anos, e as projeções do Eurostat prevêem um aumento sustentado da população com 65 anos ou mais até meados do século. Em grande parte do continente, o debate deixou de questionar se o envelhecimento ocorrerá e passou a discutir como sustentar—fiscal e socialmente—sociedades em que a proporção entre indivíduos em idade ativa e idosos se estreita progressivamente.
Daí um paradoxo que permaneceu ausente da agenda política por muito tempo: Europa e América Latina compartilham uma crise do cuidado em trajetórias divergentes, ainda que com importantes pontos de convergência. A Europa enfrenta um déficit de cuidadores em um contexto de alta longevidade e redes familiares enfraquecidas. A América Latina, por sua vez, ainda conta com coortes relativamente jovens, mas essa população é crescentemente absorvida pelo mercado de trabalho ou emigra, o que corroi os arranjos familiares que historicamente absorviam o trabalho de cuidado. Nenhuma das duas trajetórias deve ser lida como um espelho da outra. De fato, a América Latina e o Caribe mantêm uma agenda própria, firmemente ancorada em um marco de direitos e na desigualdade estrutural de gênero, e não pode ser concebida como uma versão atrasada do percurso europeu. O resultado compartilhado, entretanto, é um desalinhamento crescente entre quem precisa de cuidado, quem pode provê-lo e o quanto os Estados estão preparados para reconhecer que o cuidado deixou de ser uma questão privada e tornou-se uma questão central de política pública.
II. A Arquitetura da Crise: Do Cuidado Familiar aos Sistemas Públicos Nascentes
Em 2022, a União Europeia adotou a Estratégia Europeia de Cuidados, reconhecendo que o cuidado não pode mais ser concebido exclusivamente como uma questão de saúde, mas deve ser compreendido como um pilar da sustentabilidade econômica e da coesão social. A mudança política e institucional central é que o cuidado deixa de ser enquadrado como responsabilidade privada das famílias e passa a ser um problema de política pública sujeito a padrões, regulação e financiamento estável. O gasto médio europeu com cuidados de longa duração situa-se em torno de 1,7% do PIB, com os países nórdicos e os Países Baixos superando 2% e 3% respectivamente, enquanto outros, como a Espanha, permanecem abaixo de 1%. Nesse sentido, a Europa funciona como um laboratório vivo do que acontece quando o cuidado é reconhecido como bem público antes que a crise se materialize plenamente: ganha-se tempo e constroem-se instituições, mas a pressão demográfica não cede—e o cuidado nunca foi estritamente privado; sempre foi organizado politicamente, inclusive pela omissão do Estado.
A América Latina entra nessa conversáção a partir de um ponto de vista diferente: não pela antecipação, mas pelo choque. A pandemia de COVID-19 evidenciou que a infraestrutura de cuidados da região é incipiente, fragmentada ou simplesmente inexistente. O que se sustentara por décadas no trabalho não remunerado das mulheres emergiu subitamente como um elo crítico na sustentabilidade tanto da vida social quanto dos sistemas econômicos. Em 2022, a XV Conferência Regional sobre a Mulher na América Latina e no Caribe cristalizou esse ponto de inflexão no Compromisso de Buenos Aires: os governos reconheceram o cuidado como um direito—o direito de cuidar, de ser cuidado e de cuidar de si mesmo—e o situaram explicitamente no centro da agenda social e econômica. Essa formulação vai além da economia do cuidado: propõe uma sociedade do cuidado ancorada nos direitos e na reorganização política de quem cuida e em que condições.
A partir daí, uma cascata de inovações institucionais se seguiu. Na Colômbia, o Sistema Distrital de Cuidado de Bogotá (SIDICU) tornou-se um dos primeiros esforços abrangentes para organizar serviços dispersos sob o princípio da corresponsabilidade. O México, por sua vez, incorporou em seu Orçamento Federal de Gastos de 2026 o Anexo Transversal 31 “Consolidação de uma Sociedade do Cuidado” com recursos equivalentes a aproximadamente 1,2% do PIB—embora analistas observem que grande parte disso reflita uma reclassificação de programas existentes, e não novas despesas. A região conseguiu identificar o problema e começar a desenhar sistemas, mas o abismo entre o reconhecimento formal e a capacidade efetiva de implementação continua enorme. Déficits em infraestrutura, formação de pessoal e sustentabilidade financeira fazem com que o cuidado se encaixe melhor no discurso político do que no cotidiano de quem cuida e de quem é cuidado.
III. A Cooperação Internacional como Facilitadora (e como Fronteira) da Mudança
Se as transformações demográficas conectam Europa e América Latina, a cooperação internacional ajuda a explicar por que suas agendas de cuidado estão começando a convergir. A ONU Mulheres avançou com roteiros nacionais para sistemas integrais de cuidado, contribuindo com marcos conceituais—corresponsabilidade, economia do cuidado, autonomia econômica das mulheres—que se traduzem em leis, planos e arranjos institucionais. No nível bi-regional, o Pacto do Cuidado entre a União Europeia e a CELAC, lançado em Santa Marta em 2025, é o símbolo mais visível dessa convergência—uma declaração política que estabelece um marco de cooperação para promover a economia do cuidado e facilitar o intercâmbio de experiências entre as regiões.
Quando o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ou o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) priorizam a economia do cuidado em suas agendas—por meio de financiamento para diagnósticos, estudos de custo ou programas piloto—não apenas fornecem recursos, mas também definem marcos analíticos e soluções de política. Nesse contexto, o financiamento internacional opera de forma dual: permite que países com restrições fiscais experimentem sistemas de cuidado, desenvolvam capacidade institucional e gerem evidências empíricas; ao mesmo tempo, canaliza as intervenções para repertórios de políticas alinhados às prioridades dos financiadores. Para a América Latina, isso levanta questões sobre a capacidade da região de adaptar essas agendas de forma autônoma—integrando elementos de sua trajetória histórica em direitos sociais e seus padrões específicos de desigualdade, como as persistentes disparidades de gênero, as lacunas regionais e os marcos jurídicos existentes—em vez de limitar-se a transpor modelos externos. O grau em que isso for alcançado determinará a sustentabilidade e a relevância de longo prazo de seus sistemas de cuidado.
IV. A Questão Política sem Resposta: Quem Paga e Como?
A Europa destina em média aproximadamente 1,7% do PIB aos cuidados de longa duração, enquanto diversas estimativas—incluindo as do Instituto Mexicano para la Competitividad (IMCO) e projeções da CEPAL—sugerem que a América Latina necessitaria de entre 1,8% e 2,5% do PIB para construir sistemas universais minimamente robustos. Essa lacuna não é meramente aritmética: revela que a região parte de um déficit histórico em investimento social e não pode improvisar financiamento por meio de realocações marginais de gastos.
A questão política mais profunda não é simplesmente quanto custará a economia do cuidado, mas quem arcará com esse custo e por meio de que arranjos redistributivos. As opções são conhecidas, porém politicamente difíceis: reformas fiscais progressivas, eliminão de isenções regressivas, endividamento com orientação social e contribuições sobre a folha de pagamentos que envolvam os empregadores no financiamento do cuidado. Como argumentam a CEPAL e a ONU Mulheres em sua agenda fiscal de igualdade de gênero, os sistemas tributários reproduzem viéses de gênero, regressividade estrutural, insuficiente peso dos impostos diretos sobre a riqueza e a propriedade, e gastos tributários não avaliados—de modo que financiar o cuidado requer examinar simultaneamente a receita e o gasto público por uma lente redistributiva. O Pacto do Cuidado UE-CELAC abre uma janela para que esse financiamento entre na agenda bi-regional, mas, como declaração não vinculante, não substitui as decisões domésticas sobre tributação, prioridades de gasto e regras fiscais.
Na prática, isso significa que os governos precisarão reescrever três componentes de sua arquitetura fiscal. Primeiro, os marcos de responsabilidade fiscal devem deixar de tratar o gasto com cuidados como um custo corrente e passã-lo a reconhecer como um investimento em capital humano e sustentabilidade do sistema de saúde. Segundo, as polítticas tributárias devem incorporar explicitamente o envelhecimento demográfico na revisão de subsídios mal direcionados e na abertura de espaço para impostos sobre a riqueza que financiem a proteção na velhice. Terceiro, a cooperação internacional deve superar os projetos fragmentados rumo a compromissos de cofinanciamento de longo prazo, nos quais as organizações multilaterais assumam parte do risco político de expandir a economia do cuidado em sociedades com restrições fiscais.
Em última instância, a economia do cuidado nos obriga a enfrentar uma discussão desconfortável, porém inescapável. Em sociedades que envelhecem e têm cada vez menos filhos, a ficção de que o cuidado pode continuar a repousar sobre o tempo não remunerado das mulheres é insustentável. Esse modelo não é apenas inviável no futuro—é estruturalmente injusto em sua origem, pois sempre se alicençou na desigualdade de gênero e na invisibilização do trabalho reprodutivo. Tornar o cuidado um direito exigível significa reconhecê-lo como um bem público que requer impostos, regras claras e prioridades definidas. A questão já não é se os países podem se dar ao luxo de investir entre 1,8% e 2,5% do PIB em cuidados, mas se podem se dar ao luxo de não o fazer.

Ángela Guarín Aristizábal é Professora Associada da Escola de Governo Alberto Lleras Camargo da Universidad de los Andes. É Doutora em Bem-Estar Social e Mestre em Trabalho Social pela Universidade de Wisconsin–Madison, e possui graduação em Sociologia e Comunicação Social pela Universidad Javeriana, Bogotá. Sua pesquisa centra-se nas transformações das estruturas familiares, políticas sociais de infância e família, estudos de gênero, pobreza e desigualdade. Seus trabalhos recentes analisam os sistemas de pensão alimentícia na Colômbia numa perspectiva comparada, a violência de gênero, a proteção social e a migração. Suas áreas de especialização incluem economia do cuidado, políticas públicas e o bem-estar de populações vulneráveis.

Nixon Daniel Vera García é pesquisador da Escola de Governo Alberto Lleras Camargo da Universidad de los Andes, onde cursa um Mestrado em Saúde Pública (c) e possui graduações em Economia e em Governo e Assuntos Públicos. Seus interesses de pesquisa abrangem avaliação de impacto, políticas públicas, saúde pública, economia regional e urbana, conflito, desenvolvimento e governança colaborativa. É membro da rede de pesquisa Health Protect, uma iniciativa financiada pelo MRC UKRI e liderada pela London School of Economics, que reúne pesquisadores do Brasil, Argentina, Colômbia, Equador, México e Reino Unido. O Health Protect concentra-se em compreender como a pobreza e a desigualdade afetam a saúde na América Latina; por meio da combinação de modelos de microssimulação econômica e de saúde, o projeto avalia o impacto e a custo-efetividade das políticas de proteção social sobre a morbidade, a mortalidade e as desigualdades em saúde.
As opiniões expressas neste blog são exclusivamente as do autor e não refletem as opiniões da Rede EULAS.


Comentários